O Governo que Quer Gerir a Notícia
Quando o poder não se limita a governar, mas quer também
ditar como é que esse governo é contado
O ranking que ninguém pediu
Em abril de 2026, soube-se que o Governo contratou, por
cerca de 40 mil euros, uma plataforma de inteligência artificial chamada
NewsWhip. O problema não é a monitorização de meios — é o que vem a seguir: a
plataforma permite criar "rankings individuais de jornalistas,
classificando-os pelo número de notícias que produzem e pelo impacto que essas
notícias têm". A pergunta é simples: para que quer o Estado uma lista
classificada de jornalistas, e quem tem acesso a essa informação dentro do executivo?
O Governo respondeu com a linguagem habitual do "não há
nada a ver aqui", classificando a ferramenta como um mero serviço de
clipping moderno. Mas o precedente internacional existe e é perturbador: no
Reino Unido, o mesmo fornecedor foi contratado pelo Governo britânico e "o
que começou como monitorização de desinformação acabou documentado num
relatório de mais de 100 páginas sobre unidades governamentais que vigiavam
jornalistas e políticos individualmente". Ignorar este paralelo não é
ingenuidade — é irresponsabilidade.
A Central que comunica sem contraditório
A ferramenta de monitorização não surgiu no vazio. Surge num
contexto em que Montenegro construiu um aparelho de comunicação governamental
concebido para chegar ao público sem passar pelo filtro do jornalismo. O
próprio Sindicato dos Jornalistas já denunciou que as conferências de imprensa
do executivo "não são mais do que comunicações sem direito a
perguntas". Um governo que comunica muito mas responde pouco não está a
ser transparente — está a fazer propaganda.
A professora Dora Santos Silva, da Universidade Nova de
Lisboa, foi direta: "O Governo está muito preocupado em gerir a sua
visibilidade e a sua comunicação política, em vez de utilizar o jornalismo como
verdadeiro mediador de informação".
As lições de jornalismo que ninguém pediu
Em outubro de 2024, na conferência "O Futuro dos
Media", Montenegro aproveitou o palco para dar uma lição aos jornalistas
presentes. Criticou os repórteres que fazem perguntas que lhes são
"sopradas ao ouvido", concluindo que "os senhores jornalistas
não estão a valorizar a sua própria profissão". Confrontado com as reações
indignadas, admitiu ter sido provocatório, mas considerou a reação exagerada —
como se rebaixar publicamente uma classe profissional fosse uma brincadeira
aceitável para um chefe de governo.
O Sindicato dos Jornalistas classificou a atitude como
"arrogante e deselegante, incompatível com o espírito democrático",
lembrando que "não é admissível que quem exerce funções governativas
responda com desdém" a questões legítimas que servem os cidadãos.
O paradoxo
Tudo isto coexiste com um Plano de Ação para os Media que,
no papel, contém medidas razoáveis: apoios à contratação de jornalistas,
descontos nos serviços da Lusa, comparticipação em assinaturas digitais. As
palavras soam bem. Mas um governo que financia media, monitoriza jornalistas
com IA e comunica em circuito fechado não está a construir uma imprensa livre —
está a construir uma imprensa dependente. A sustentabilidade financeira que o
Estado oferece com uma mão pode facilmente tornar-se pressão exercida com a
outra.
A liberdade de imprensa existe para proteger os cidadãos do
poder — incluindo, e sobretudo, do poder que governa com boas intenções
declaradas. Um governo que trata o escrutínio como um inconveniente a gerir não
ameaça a democracia com um golpe. Erode-a devagar, pela normalização do
controlo. E essa é a forma mais perigosa de o fazer.
Francisco Ferreira


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